CAROLINA

<fernando> de onde fala? <carolina> onde gostaria de estar? <fernando> você moraria em uma cápsula na torre nakagin? <carolina> o que vê através de janelas plastificadas cor-de-rosa? <fernando> eu sou o gato azul <carolina> vejo coisas que ninguém mais poderia ver? <fernando> se isso é o éter então deveríamos ouvi-la <carolina> qualquer pessoa pode fazer música do éter? <fernando> os beatles, certamente  <carolina> björk, para mim <fernando> corra, Lola, corra <carolina> libertar nossos pensamentos, transcender o espectro, alcançar o além transparente, isso soa cult <fernando> sou o escolhido do éter <carolina> oh céus oh vida oh azar <fernando> oh mercurio oh morfeu <carolina> por isso temos o éter um lugar de paz eterna…

As pessoas se escrevem porque não podem falar-se: o mais das vezes por causa da distância, da separação, de um espaço que as falas não podem transpor. Como por ocasião de uma viagem ou de um exílio. Esse foi durante séculos o único meio de dirigir-se aos ausentes, de levar o pensamento aonde o corpo não podia ir, aonde a voz não podia ir, e talvez esse seja o mais belo presente que a escrita nos trouxe: permitir vencer o espaço, vencer a separação, sair da prisão do corpo, ao menos um pouco, ao menos pela linguagem, por esses pequenos traços de tinta sobre o papel.31

O mais belo presente, mas não o único, nem o primeiro. A escrita teve uma função de arquivamento, sem dúvida, antes de ter uma de comunicação. Tratava-se de vencer o tempo, de conservar, mais do que trocar ou se a escrita servia para comunicar-se, era antes pelo deslocamento dos leitores do que pelo da mensagem. Gravava-se em uma estrela diante da qual as pessoas passavam: imobilidade do texto, mobilidade dos leitores. Trata-se não de trocar, mas de manter.32

Escrevemos nossas cartas, não para vencer a morte, não para vencer o tempo, mas para habitarmos juntos, tanto quanto pudermos, o pouco tempo que nos é dado e comum. O que é um amigo? O amigo é, de fato, um outro si mesmo, na expressão latina, “alter ego”. Sentir que vivemos é por si só doce, já que a vida é naturalmente um bem e é doce sentir que um tal bem nos pertence. Viver é desejável, sobretudo para os bons.33

 

31 Bom dia, angústia! de André Comte-Sponville, editora Martins Fontes, edição 01, 1997.

 32 Idem.

33 Ibid.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s