FERNANDO

Um pouco de nossa vida, na loucura do mundo. Um pouco de nosso amor, no deserto das cidades. Por que se escreve uma carta? Para habitar juntos a essencial solidão, a essencial separação, a essencial e comum fragilidade. Para descrever o tempo que está fazendo, o tempo que está passando. Para contar o que nos tornamos, o que somos, o que esperamos. Para exprimir a distância, sem a suprimir, o silêncio, sem o corromper. Amar, e não sabemos. 29  

Faz algum tempo penso em Fernando. O verão inteiro pensando em Fernando porque pintava o apartamento. A última vez que nos vimos o piso verde escuro da sala pareceu tragar nossos pés, choramos com a despedida, talvez realmente Recife seria a morte! Havia uma palmeira reclinada folhas que não caem como se verde, frio, recebo outro perfume de presente. Admirei o cabelo espetado, o sorriso perfeito sem aparelho, tua estatura. Guarde com cuidado o colarzinho com um pingente de coração e se chove tem de tirar esse colar apressadamente, lembrando dos perfumes, da despedida, das lágrimas. Ah, sim, Recife seria a morte!

Fernando você caminha por corredores, pelas ruas com gente e automóveis, não há sereias gritando pavores irreprimíveis entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo passa um momento uma figura de homem, não toque nos objetos, são loucos todos os objetos. Tudo se torna canto, dança, graça e coragem. Há a sombra da morte, a injustiça do destino, a raridade do amor. Escuto sem te ouvir. O homem vai andando com suas ideias falso e estrangeiro, olho de longe sem nenhuma opinião.30

As verdadeiras cartas, aquelas que gostamos de receber, são gratuitas e insubstituíveis, como a vida, o amor, um presente, e são um presente. Não é nada, ou quase nada, um pedaço do mundo e da alma, transmitido como que por milagre, tão profundo no coração, tão próximo na grande distância. Pensem que uma cor é uma alegria para os olhos. A felicidade é o sabor mesmo da vida. Por que se escreve uma carta? Porque não se pode nem falar nem calar.

 

 29   Bom dia, angústia! de André Comte-Sponville, editora Martins Fontes, edição 01, 1997.

30  Porto de  Abrigo, portal de poesia portuguesa on-line disponível em http://portodeabrigo.do.sapo.pt/ acesso em 2014.

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