MIL PLATÔS, ANARQUISMO, OS COMITÊS HIDROGRÁFICOS

Tem uma afirmação na obra de Milton Santos muito valiosa: a de que não há espaço onde o uso do tempo seja o mesmo para todos os homens. ⁹ A geografia então consistiria na investigação da territorialização do tempo da simultaneidade, sobre a simultaneidade de diversos tempos na crosta terrestre ou acerca das diferenciações no espaço, a assimetria como a matéria é organizada pelos homens, as coexistências passado-presente-futuro na paisagem.10

Engraçado o homem produz espaço e tempo em um processo no qual se projeta e deposita energia e informação sobre um ecossistema, produz linguagem, representações, identidades, mas não edita diretamente as leis que disciplinam suas ações no ambiente, não participa efetivamente quando se trata de dispor das impossibilidades na configuração do meio.

Mais interessante é o completo esquecimento do discurso anarquista na atualidade, quando já alcançada a compreensão do que significa tal territorialização espacial e temporal, o que exige uma avaliação das relações de poder na comunidade e da importância atribuída à autonomia social e psíquica.

Uma experiência democrática relevante é a dos Comitês de Bacia Hidrográfica em implantação por todo o país desde a edição da Lei n.° 9.433/97. Cada segmento da bacia hidrográfica resta representado e tem direito a voz e voto nas reuniões plenárias onde se decide sobre as formas de utilização da água, os critérios para outorga de uso e os mecanismos de cobrança, produzindo-se diretamente as normas que regerão as condutas de todos os setores em relação à água. O comitê além de funcionar como o parlamento das águas ainda está encarregado de arbitrar os conflitos verificados em torno dos recursos hídricos.

Richard Rorty citando o poema “Similar Cases”11 da escritora feminista Charlotte Gilman diz melhor do que imitar o modo como os peixes maiores e mais fortes lidam com o ambiente é encontrar um modo de fazer as coisas que ajude a “descobrir” um novo ambiente.12

 

⁹ Por uma outra globalização, do pensamento único à consciência universal, editora Record, edição 19, 2011.

 10 Idem.

11 Verdade e Progresso, editora Manole, edição 01, 2005.

12 Idem.

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