COISAS VIVAS

No início da década de 1970 John Conway, matemático, cria o Game of Life, demonstrando que é possível computadores apresentarem comportamento atribuído a seres vivos, e contribuiu decisivamente para suscitar uma nova área de conhecimento, a vida artificial. Hoje, Arduino é o exemplo mais pujante de objeto pós-complexo, um computador compacto e versátil, distribuído em kits como peça de Hardware Livre, um autêntico exemplo dos preceitos do movimento Arquitetura Livre em operação.52

Na antropologia apenas recentemente foram desenvolvidas perspectivas teóricas preocupadas com o papel dos objetos na rede de relações sociais. A Teoria do Ator-Rede de Bruno Latour considera que a vida social, a prática cotidiana, possui um caráter híbrido que permeia as relações entre objetos e pessoas, desse modo, objetos podem ser sujeitos, assim como sujeitos podem ser objetos.53 Tim Ingold vai além no seu Ambiente Sem Objetos, para Ingold, ao contrário de ocuparmos um mundo com objetos, nós habitamos um ambiente sem objetos, no qual nos juntamos aos processos de formação e dissolução de diferentes entidades, que correspondem às coisas, que assim como nós, também estão vivas, pois elas vazam por e através de suas superfícies por meio do entrelaçamento dos fios que as constituem.54

O recente reconhecimento da agência dos objetos na antropologia reacende no direito penal o debate em torno de um conceito ontológico ou normativo de ação.

A ação humana é concebida como um processo de mão única no qual o homem antecipando o resultado pretendido escolhe os meios suficientes para alcançá-lo, controlando o curso causal. Um conceito de ação que não ignora a agência dos objetos compreende o agir humano como um processo de mão dupla no qual o homem se insere em uma rede de relações sociais, interagindo com coisas vivas para alcançar um resultado pretendido. O resultado pretendido não pode ser visto como fruto da vontade exclusiva do agente, mas como congruência de pessoas e coisas dentro de um quadro de relações sociais específicas e próximas em um nicho de interação.

Quando se fala em vida artificial pode ser difícil separar a realidade da fantasia, mas os objetos deixaram de ser vistos como entidades passivas que somente sofrem os efeitos das ações humanas e hoje em dia o agir no mundo já não pode continuar sendo compreendido da mesma maneira.

 

52 Metadesign Ferramentas Estratégias e Ética para a Complexidade de Caio Adorno Vassão, editora Blucher, 2010.

53 A imaterialidade do material, a agência dos objetos ou as coisas vivas: a inserção de elementos inanimados na teoria social artigo de Fabiana Terhaag Merencio na revista Cadernos do LEPAARQ, volume 10, número 20, 2013.

54 Idem.

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