MAKING WISHES ON STARS

Subi até o meu quarto, liguei o meu computador, tirei a mala do roupeiro. Arrumei alguma roupa na mala, o suficiente, enquanto o computador iniciava, fui no banheiro e arrumei a minha malinha de produtos de beleza, com a maquiagem e os cremes. Quando a mala ficou pronta desarrumei a cama e vesti o pijama, peguei no computador e deitei-me. Iniciei sessão no Facebook, Fernando estava online, começamos a conversar.

Fernando, o que sou eu além das definições exteriores que podem dar de mim: a aparência física, o caráter exposto em linhas gerais, as relações mantidas com o outro, as ocupações profissionais e pessoais, os laços familiares e de amizade, a reputação, os engajamentos, as vinculações a organizações?64

Além dessas definições, sem dúvida justas, mas também artificialmente construídas e enganosas, quem, em um sentido mais profundo, sou eu? E esse eu, que é a nossa riqueza, é construído quando nos abrimos para o mundo – a aptidão pelo observar, a empatia com o ser vivo, a necessidade de se incorporar ao real.65 O eu não é somente aquele que pensa e que faz, mas aquele que sente e que experimenta, segundo as leis, uma energia interna subjacente, incessantemente renovada.66

Você me fez querer ir atrás dessa força imperceptível que nos impulsiona e que nos define: acompanhar o voo de uma única andorinha no meio do bando, olhar, de cima, um gato que nem desconfia que está sendo observado, rir disfarçadamente, esperar o entardecer, regar as plantas e conversar com elas, apreciar o toque macio de um pêssego, ter um sobressalto de prazer ao som de uma voz, partir para uma aventura, organizar pequenos objetos disparatados, ficar na penumbra sem fazer nada, admirar os galhos agitados pelo vento, andar descalço, ouvir as vozes que ecoam do mar, prever que choverá no dia seguinte, desfrutar o prazer das conversas sem fim com velhos amigos, imaginar e inventar belas histórias…67

Certamente o inefável em momentos como esses consiste na suspensão crítica, na redução da situação objetiva, da mais radical subjetividade, o que nos distinguiria dos robôs, por exemplo. Desse modo, o que mais poderia dizer para você sobre minha vida?  Acho que isso é, na verdade, uma coisa do outro mundo, nos mundos virtuais, onde também experimentamos nossa existência, as comunidades se constituem mais centradas na ação e nos seus resultados do que nas afinidades sociais, culturais ou políticas entre seus membros.68 Vou continuar seguindo o método dos surrealistas, e trata-se de coisa muito séria, demasiado necessária para conservar o gosto da vida.

 

64 O Sal da Vida de Françoise Héritier, editora Valentina, edição 06, 2014.

65 Idem.

66 Idem.

67 Ibid.

68 Mundos virtuais e identidade social: processos de formação e mediação através da lógica do jogo artigo de José Carlos Ribeiro e Thiago Falcão na revista Logos, Rio de Janeiro, volume 16, número 01, 2010.

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