MORE THAN A SUMMER FLING

No livro Contagem Regressiva até Zero Day a jornalista Kim Zetter conta a história por trás do Stuxtnet, a primeira arma digital do mundo. O Stuxtnet era um worm de computador projetado especificamente para atacar o sistema operacional SCADA desenvolvido pela Siemens e usado para controlar as centrífugas de enriquecimento de urânio iranianas. O Stuxnet era diferente de qualquer vírus ou worm anteriormente construído porque causava destruição física real, seu alvo era a infraestrutura industrial das usinas nucleares iranianas.89

Um dos aspectos mais curiosos dos ciberconflitos é o papel bastante significativo desempenhado por atores não estatais neles. No caso do Stuxtnet como a usina nuclear não tinha computadores conectados à internet, a infecção deve ter ocorrido quando um dispositivo com o vírus, provavelmente um pen drive, foi conectado aos computadores da usina por algum operador sem que percebesse o que estava fazendo. Uma articulação entre atores estatais e não estatais para efeito de ciberataques parece existir em vários países. Na China é possível, para uma mesma unidade de milícia de ações de ciberguerra, ser, ao mesmo tempo, um departamento de tecnologia de informação em uma universidade, uma agência de publicidade online, um clã de jogo online, uma equipe de hackers patrióticos ou um sindicato do cibercrime local envolvido em pirataria informática.90

Como os ciberconflitos podem ocorrer ao mesmo tempo de uma conflitualidade física ou de forma totalmente autônoma, não é possível afirmar que seu desfecho está ligado ao de conflitos políticos, econômicos ou militares no mundo real. O comportamento dos atores que protagonizam ciberconflitos parece se basear mais na sensibilidade mútua dos participantes que se orientar por motivos racionais. Por isso novas formas de produção social como “open production”, “peer production” ou “mass colaboration” podem se apresentar como vias para a pacificação de ciberconflitos, porque promovem uma abordagem network-based bottom-up versus um modelo business-centric top-down.

A ampliação de nossa capacidade de criar coisas juntos, de doar nosso tempo livre, nossos talentos particulares a algo útil, é uma das grandes oportunidades atuais, e que muda o comportamento daqueles que dela tiram proveito e que, espera-se, permitirá o desenvolvimento de práticas de enfrentamento suficientes, de tal modo que se possa sobreviver de formas consideradas desejáveis de várias maneiras.

Somente movimentos arremessados no tempo e no espaço pela própria cibercultura como o “maker movement” podem proporcionar “feedback” para questões como a descentralização dos meios de produção, criação de valor local e democratização da tecnologia, e, principalmente, fornecer conexões entre sistemas de informação e as pessoas que os usam.

 

89 Contagem Regressiva até Zero Day de Kim Zetter, editora Brasport, edição 01, 2017.

90 Mobilising Cyber Power artigo de Alexander Klimburg na revista Survival: Global Politics and Strategy, volume 53, número 01.

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