ROBOTITA MÍA

“Se eu tivesse cortado suas asas, seria meu. Ele não teria escapado. Se eu tivesse cortado suas asas, seria meu. Ele não teria escapado. Mas se eu tivesse feito isso não seria mais um pássaro. Mas se eu tivesse feito isso não seria mais um pássaro. E eu, eu amava o pássaro. E eu, eu amava o pássaro.” Esta canção se chama Hegoak e você pode vê-la na internet interpretada lindamente por Anne Etchgoyen no festival Jazz in Marciac ocorrido em 201297. Lembrei dessa música quando pensava sobre o problema da confusão humano/robô. Explico.

A chegada de uma nova entidade sócio-técnica no ambiente digital – o socialbot – abriu uma nova fronteira para a experiência humana, a robô-socialidade. Socialbots aparecem no contexto das redes sociais como Facebook e Twitter para estimular os usuários humanos nos sites de social networking. Eles têm um perfil, compartilham imagens, postam, curtem, conversam com usuários, fazem seguidores, enviam e aceitam convites de amizade, ou seja, interagem com humanos de modo significativo.98

Isto torna a socialidade automatizada, e se poderia falar de uma reificação dos relacionamentos online. Mas esse processo de interação humano-robô é bastante vulnerável, pois há muitos handoffs. Handoff é a passagem do bastão, quando a atividade muda de mãos, e pode resultar em desconexões do processo. É verdade que socialbots interagem online em busca de fins comerciais e políticos, mas seu poder influenciando pessoas é limitado. Nos sites de social networking o socialbot é apenas um “player” entre tantos outros com quem interagir.

Contudo, se a linha demarcatória entre atores sociais e não-sociais torna-se frágil pode ser preocupante que enormes massas de socialbots contaminem a interação online. Por isso ganharam importância na multiplicidade do ambiente digital as técnicas desenvolvidas para identificar socialbots, como o Teste de Turing, por exemplo.99

Essas questões emergem contra o pano de fundo dos desafios de longa data e em evolução para as ontologias antropocêntricas. Como destacam Robert Gehl e Maria Bakardjieva sites de social networking privilegiam a racionalização e automação da atividade humana, tornando mesmo a comunicação humano-humano bastante mecânica ou “cyborg”.100 Ironicamente, a figura do “cyborg” não nos intima a perguntar sobre a natureza dos robôs, mas, muito mais perigosamente, sobre a natureza do humano: quem somos nós?

 

97Disponível em https://youtu.be/7e6Td3iEBe4 acesso em 2018.

98 Socialbots and Their Friends: Digital Media and the Automation of Sociality de Robert Gehl e Maria Bakardjieva, editora Routledge, 2017.

99 Idem.

100 Idem.

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