BOLHAS

Em Bolhas Peter Sloterdijk desenvolve uma análise filosófica sobre o homem e sua relação com os semelhantes e o entorno, a partir da noção de “espaços íntimos” como “bolhas”. Trata-se de reconhecer que o ser humano vive em esferas, em incubadoras, onde o homem se desenvolve e se relaciona com os outros satisfazendo a mais arcaica das necessidades, a necessidade de proteção, ao construir bolhas protetoras.101

Na ciência da computação o espaço operacional pessoal de uma pessoa é o espaço que normalmente se estende até dez metros em todas as direções em torno de uma pessoa e envolve a pessoa. Esta “bolha” chamada de POS (personal operating space) está presente se a pessoa estiver estacionária ou em movimento. Ao longo de suas atividades diárias, há muitas oportunidades e informações a serem trocadas entre você e outras pessoas ou entre sua “bolha” de POS (personal operating space) e aplicativos ou dispositivos atualmente existentes.102

Esses conceitos de “bolha” parecem relevantes hoje quando nos deparamos com os limites da abordagem sistêmica e da complexidade para compreender processos de interação social. Algumas expressões são características dessa abordagem, tais como não-linearidade, auto-organização, ordem emergente, sistemas adaptativos complexos, posição do observador, e assinalam uma ciência que afirma a primazia de processos sobre eventos, de relações sobre entidades, do desenvolvimento sobre a estrutura.103 O direito penal foi influenciado pela teoria sistêmica e tanto o funcionalismo de Claus Roxin quanto o de Günther Jakobs trabalham com o pressuposto de que o direito penal seria um sistema fechado e autopoiético.

Porém o reconhecimento de que as formações sociais são hiper complexas, ambíguas, extensivas e refletem particularidades que mesmo a teoria dos sistemas ou da complexidade não são capazes de descrever ou explicar leva ao reconhecimento da importância dos discursos particulares e da natureza situacional dos processos sociais.104 Como em uma “bolha”, passa a importar a interpretação de situações concretas de interação porque somente existiriam situações de interação construídas subjetivamente em nichos de convivência. No campo penal a metáfora da “bolha” é uma estratégia de discurso para aceder à crítica dos critérios utilizados na determinação da responsabilidade penal.

Sloterdijk nos faz observar que no processo de crescimento o homem tem de abandonar suas bolhas de segurança, seus espaços cômodos de conforto em busca de autonomia; uma jornada complexa na medida em que, ao ter de abandonar a esfera que lhe é íntima, sempre haverá outra esfera, desconhecida, a aguardá-lo.

Para os cientistas da computação considerando o desenvolvimento em opções de conectividade e a proliferação de dispositivos que podem ser conectados a uma rede, de repente percebemos que o espaço operacional pessoal pode não ser tão pessoal assim, havendo a necessidade de desenvolver mecanismos para proteger a sua própria “bolha”.

 

101 Bolhas, Peter Sloterdijk, editora Estação Liberdade, 2016.

102 Personal Area Networks – How Personal are They? artigo de Virgil L. Hovar para SANS Institute disponível em https://bit.ly/2PtrEUm acesso em 2018.

103 Da abordagem de sistemas abertos à complexidade: algumas reflexões sobre seus limites para compreender processos de interação social artigo de Maria Ceci A. Misoczky na revista Cadernos EBAPE.BR, Rio de Janeiro, volume 01, número 01, 2003.

104 Idem.

2 thoughts on “BOLHAS

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s