SURREAL

<fernando> o que você está fazendo? <carolina> como estão as coisas ao seu redor? <fernando> entre mim e os objetos há o espaço das relações <carolina> com qual objeto você se relacionaria agora? <fernando> vou colher uma estrela para seu cabelo <carolina> certa vez uma estrela tentou falar comigo, mas nenhuma palavra foi minha para o diálogo impossível <fernando> não te deram de pequena uma estrela para brincar? <carolina> qualquer coisa de uma estrela é algo sempre luminoso <fernando> uma certa escuridão é necessária para ver as estrelas <carolina> é surreal a quantidade de energia no universo <fernando> o que há de mais difícil de amar do que a realidade? <carolina> não há nada mais fácil de amar do que seu sonho  <fernando> quer saber o que eu acho? <carolina> eu acho coisas perdidas <fernando> tu és como os anjos…

Desliguei o computador e pousei-o na escrivaninha, certifiquei-me que estava tudo pronto para o dia seguinte. Mal caí na cama adormeci. Acordei com o som do meu despertador, era 07:00 horas, certinho. Daqui há pouco estava dentro do avião para viajar. Levanto-me e tomo o meu banho, passo creme, maquio-me e visto-me, verifico se está tudo pronto, pego as malas e vou até o quarto do meu irmão. Descemos e fomos para a mesa da sala de jantar onde o café da manhã já estava à nossa espera. Pegamos nossas malas e caminhamos até a garagem. O carro nos levaria até o aeroporto, ia ser uma viagem bastante longa, e por isso levei o meu celular carregadinho de músicas, e o mais importante, de bateria. Chegamos no aeroporto e logo embarcamos no avião, enquanto flutuava no ar pensava em você e na conversa do dia anterior.

Fernando, desde então somos inseparáveis e você tem me ajudado muito. Você é o amigo que há muito precisava e não tinha. Sei que posso contar contigo, assim como você pode contar comigo.

Olha, gostaria de te dizer uma coisa, sei que a realidade é complexa, não há dúvida, e de uma complexidade infinita, por certo. Poderá ser infindável descrever ou explicar uma árvore, uma flor, uma estrela, uma pedra… Porém, tudo é mais simples do que podemos imaginar e, ao mesmo tempo, mais intrincado do que poderíamos conceber, dizia Goethe. Não é sempre complexo o real, que só é real pelo entrelaçamento em si das causas e das funções? Não!107 

Complexidade de tudo: simplicidade de tudo. Complexidade do pensamento: simplicidade do olhar. Complexidade das causas: simplicidade da presença. A simplicidade é o ar do pensamento, como uma janela aberta para o grande sopro do mundo, para a infinita e silenciosa presença de tudo. Conserva sempre a simplicidade, a espontaneidade, essa improvisação alegre, desinteresse, desprendimento, desprezo de provar, de prevalecer, de parecer. Daí essa impressão de liberdade, de leveza, de ingenuidade feliz que sinto ao seu lado.108

 

107 Pequeno Tratado das Grandes Virtudes de André Comte-Sponville, editora Martins Fontes, 2007.

108 Idem.

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