MAPEAMENTO PARTICIPATIVO

Se não conheço os mapas, escolho o imprevisto: qualquer sinal é um bom presságio.109 As experiências de mapeamento participativo consistem em um esforço coletivo que visa valorizar a percepção e o conhecimento dos agentes locais nos processos de diagnóstico, planejamento e ordenamento territorial. O mapeamento participativo tanto do ponto de vista teórico quanto prático é uma técnica para elucidar conhecimentos e também viabilizar o diálogo entre diferentes vozes e sistemas culturais, seu objetivo é tanto empoderar quanto lutar contra a intolerância através do diálogo intercultural.110

Em alguns casos o mapeamento participativo resulta de processos históricos de caráter emancipatório, quando sujeitos e grupos investem no automapeamento para legitimar uma territorialidade que se apresenta como condição de manutenção de sua capacidade de viver/sobreviver; em outros casos, os mapeamentos atendem a condições históricas de manipulação/enquadramento de populações tradicionais pelo ambientalismo conservacionista, de apropriação de saberes tradicionais por interesses estratégicos da biotecnologia, da vigilância de populações e territórios por interesses geopolíticos.111

Em um outro sentido, também é um mapa participativo aquele utilizado nos jogos de realidade aumentada para situar os jogadores entre o mundo físico e o mundo virtual quando avançam utilizando seus dispositivos e aplicativos para descobrir e explorar a realidade misturada. No jogo “Ingress” onde você pode lutar ao lado dos “Enlightened” ou da “Resistance” no desafio de controlar uma energia misteriosa que ameaça dominar a Terra, há um “Mapa de Inteligência” onde é possível acompanhar em tempo real o progresso dos jogadores ao redor do mundo para planejar seus próximos passos.

Mapas como o do jogo “Ingress” que representem um sistema com suas emergências podem ser especialmente importantes para resolver uma questão problemática para o direito penal: a diferença entre dolo e culpa. As modernas teorias da representação (Frisch) e as novas teorias da probabilidade (Herzberg, Puppe) têm orientação normativista e consideram que o que torna doloso ou culposo um caso genérico é a sua valoração como mais ou menos grave a partir de um juízo objetivo a respeito do posicionamento epistêmico do autor com relação ao fato.112 Um mapa que contenha dados empíricos relevantes para a formulação da reprovação dolosa ou culposa é um limite ao arbítrio estatal em uma sistemática funcionalista orientada segundo os fins do direito penal.

Se você é um “Enlightened” e acha que devemos usar a “Exotic Matter” da melhor maneira possível ou se você pertence ao grupo “The Resistance” e luta para defender e proteger o que resta da humanidade da influência dessa energia desconhecida, o que importa mesmo com o desenvolvimento da tecnologia é a atividade concreta de um agente que se movimenta em um ambiente e, neste movimento, define trilhas e trajetórias, as quais narra e compartilha com uma comunidade, produzindo uma nova cartografia. O futuro do direito penal pode ter tudo a ver com mapeamento participativo.

 

109 Para Não Dizer Adeus de Lya Luft, editora Record, 2005.

110 Mapeamentos Participativos: ensaio crítico na perspectiva da Percepção/Cognição do Ambiente artigo de Rosa Cristina Monteiro para a revista Ambiente e Sociedade da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade – ANPPAS.

111 Idem.

112 El concepto de dolo en el derecho penal. Hacia un abandono definitivo de la idea de dolo como estado mental artigo de Gabriel Pérez Barberá na revista Cuaderno de Derecho Penal, número 06, 2011.

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