BABY

A manhã estava perfeita para andar de bicicleta, não fazia muito calor, o sol enchia o caminho de luz brincando entre as folhas das árvores, flores que teimavam em crescer no pavimento balançavam pela calçada, passarinhos voavam alegremente enquanto ao fundo da paisagem as nuvens deslizavam pela órbita terrestre lentamente.

Durante o trajeto não conversamos muito, na maior parte do caminho guiamos as bicicletas entre obstáculos: um carro estacionado bloqueava a passagem em uma rua estreita, uma árvore lançava seus galhos sobre a pista obrigando-nos a desviar para o lado, depois contornamos um poste de energia elétrica em uma curva para saltar de um buraco como exploradores do espaço rumo ao desconhecido. Na orla há uma ciclovia e então foi possível pedalar livremente, aproveitamos para relaxar e seguimos em linha reta entre pedestres fazendo cooper ou passeando com cachorros, corredores amadores e crianças se divertindo com patinetes.    

Na beira do rio tudo é mistério. Fica mais nítido o modo como estamos conectados à natureza, as águas correm incansavelmente carregando consigo um segredo e essa batida ritmada é como o pulsar do coração ou a potente harmonia das esferas.

Largamos as bicicletas no chão próximo a um banco e começamos a andar na beira do rio, do outro lado estava a ilha de onde as pessoas saíam para passear de caiaque, corremos até o muro do clube na direção da porta do sol. Ele me dá a mão e me puxa para essa entrada e quando entramos olhou-me nos olhos, ficamos a olhar um para o outro. Ele aproximou-se e colocou uma mão na minha cintura e eu meti-lhe uma mão no ombro e deu-me um beijo, foi um beijo muito intenso, foi lindo. Não sei se foi muito cedo, não sei de nada, só sei que adorei aquele beijo.

Quando cheguei em casa encontrei meu irmão jogando vídeo game na sala, ele estava muito concentrado no jogo, mas reparou como estava vermelha, respondi que havia olhado de frente para o sol, mas ele pareceu não entender o enigma. Subi e fui direto para o meu quarto, deitei-me na cama e coloquei os fones de ouvido e fiquei ouvindo música.

Fernando, o passado não é mais, o futuro ainda não é, do passado parece que não temos nada mais a temer, apenas recordar, o futuro nos inquieta, seu nada constitui a sua força. Lembrei de você ao ouvir aquela música Baby131 de uma banda dos anos 60 chamada Os Mutantes, é tudo que a gente precisa gravar em uma estrela para conservar nossa amizade… entre o passado e o futuro cuida do presente, o presente é o legado do passado que, de instante em instante, se faz sempre novo. 

 

131 Disponível em https://youtu.be/Dwwa7kzQhpM acesso em 2019.

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