VEM GIRAR MEU SOL

<fernando> você gosta de andar de bicicleta? <carolina> gosto <fernando> vamos andar de bicicleta amanhã? <carolina> pode ser <fernando> a gente vai até a orla e na volta fica conversando naquela pracinha em frente à ilha no fundo do clube <carolina> onde fica a porta do sol? <fernando> falando assim parece que vamos para uma outra dimensão <carolina> é um lugar singular como tu <fernando> jogar com as palavras é um pouco como andar de bicicleta <carolina> as palavras não exprimem toda a riqueza do mundo <fernando> é um movimento precário  <carolina> sim, simplesmente continue pedalando <fernando> o que escapa a este jogo é o que o desejo não pode alcançar <carolina> a falta é o que nos move <fernando> como podes saber o que te falta? <carolina> não sabemos, sentimos <fernando> talvez a única coisa que possamos fazer seja aceitar, sem realmente saber o que está acontecendo <carolina> os sentimentos vêm e vão <fernando> o desejo é um tirano a quem gostamos de servir <carolina> apenas sinta o sol aquecendo os corações…

Carolina, estava lendo um livro de antropologia e lembrei de você. No livro bastante antigo o escritor descreve como os jovens são iniciados na vida adulta nas sociedades tribais. Nas sociedades tribais, a mulher é o veículo da natureza e o homem o veículo da ordem social. A menina, pela própria natureza humana, não precisa aprender a se relacionar com o homem, porque ela é “vida”. O menino sim precisa aprender a se relacionar com a “vida”.132

Então os homens adultos saem com os meninos e lhes dão uma surra; perfuram seus corpos para que não tenham mais corpos de crianças e para que eles possam estar à serviço da sociedade. Se os meninos não aceitarem serão mortos e comidos. Não há misericórdia; mas desses ritos surgem seres humanos civilizados, prontos para servir a algo maior do que eles próprios.133

Acho que ainda estamos presos a essa herança cultural e mesmo hoje em dia encenamos essas histórias com a diferença de que os jovens de nossa sociedade contemporânea acabam criando seus próprios ritos de passagem numa confusão entre sua condição de transição entre a criança e o adulto se arriscando com drogas, violência ou fundamentalismo religioso. Isso pode ser um sinal de que vivemos de maneira autêntica, visceral ou simplesmente de que jamais fomos modernos?

Nós nos tornamos aptos a assumir responsabilidades na medida em que aprendemos a cuidar uns dos outros e não precisa deixar de ser criança para isso. Não gostaria de sentir que não estou criando algo belo e original com você, baby.

 

132 O declínio dos ritos de passagem e suas consequências para os jovens nas sociedades contemporâneas dissertação de Paulo Rogério Borges apresentada na Universidade de São Paulo em 2013.   

133 Idem.

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