MI CASA, SU CASA

Mi casa, su casa é uma expressão amigável que significa em sentido amplo “o que é meu é seu”, uma forma bastante interessante de dizer que compartilhamos algo porque evidencia um sentimento de pertencimento e destaca mais o relacionamento entre os envolvidos que os poderes decorrentes da propriedade.

Em uma economia de compartilhamento essa percepção se amplia, ainda que o compartilhamento não se verifique por uma finalidade altruísta, os complexos contratos que regem situações de multipropriedade, por exemplo, indicam que a propriedade está em função de relacionamentos e é a dinâmica destes relacionamentos que autoriza a falar em novas formas de propriedade coletivas. O fato é que a solidariedade se tornou um negócio, então alguma coisa teria se perdido nesse processo?

Na cidade de Hull, no norte da Inglaterra, zelar pelo bem comum tornou-se rentável, mas a novidade é que se trata de obter vantagens por cuidar dos interesses coletivos não em dinheiro, mas em uma moeda social. A cidade está lançando a HullCoin139 uma criptomoeda que será emitida em pagamento de serviços que foram feitos para o bem comum. O principal objetivo deste programa é ajudar a aliviar a pobreza, e uma série de agências de serviços sem fins lucrativos se uniram para lançar a moeda responsabilizando-se também pela sua gestão patrimonial. As pessoas ganharão o HullCoin participando de alguma atividade sancionada por uma dessas agências, como coleta seletiva de lixo, serviço voluntário em uma creche, participação no conselho da cidade, produção de biocarvão, e registrando-a por meio de um aplicativo em seu smartphone, todos poderão gastar a criptomoeda para obter descontos nas compras efetuadas nas lojas dos varejistas participantes da iniciativa.

A organização sem fins lucrativos Common Good140 também lançou a moeda digital rCredits com a finalidade de estimular o controle local da economia e, ao mesmo tempo, resolver o problema comum de moedas alternativas ficarem presas nas caixas registradoras de negócios carismáticos. Outro propósito é permitir que uma comunidade participante emita créditos como subsídios para causas sociais ou empréstimos dignos para ajudar empresas locais a começar ou expandir suas atividades.

As moedas sociais geralmente são utilizadas em uma sistemática na qual se troca um bem ou serviço por outro bem ou serviço, mas não diretamente, como no escambo, e sim através da mediação de uma moeda comunitária que expressa não um valor monetário, mas sim os créditos dos participantes naquela comunidade em função do relacionamento existente entre seus membros, uma forma de potlatch onde a tônica é dar-receber-retribuir. Que as moedas sociais estejam ajudando a zelar pelos interesses coletivos é sinal de que a solidariedade sobrevive à sua instrumentalização em práticas que empoderam os sujeitos para cuidarem do bem comum, afinal, enquanto vivermos aqui na Terra compartilharemos um futuro comum.

 

139 Disponível em http://www.hull-coin.org/ acesso em 2019.

140 Disponível em https://commongood.earth/ acesso em 2019.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s