BRONTOSSAUROS EM MEU JARDIM

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Era uma linda manhã no final do inverno quando tudo aconteceu, a primavera se aproximava e Carolina estava cuidando das roseiras no jardim. As rosas vermelhas cintilavam irradiando uma luz carmesim ao seu redor e o vento balançava as flores que projetavam sua cor vermelha por todo o canteiro. Um feixe de luz púrpura iluminou algo que ela ainda não tinha visto ali, parecia uma pata de algum animal gigantesco, Carolina não acreditava no que estava acontecendo, não poderia ser possível, um brontossauro em meu jardim!

O brontossauro não se movia, parecia congelado no espaço-tempo que aparentemente sofrera uma ruptura deixando entrever o maravilhoso ser pré-histórico. Carolina não se conteve de alegria e deu vários pulinhos ao redor do brontossauro batendo palmas e dando vivas. Tocou na carapaça do brontossauro e tentou dar um beliscão no animal, mas não conseguiu. Deslizou as mãos pela cauda e a aspereza da couraça era impressionante. Sem saber porque lembrou de uma reportagem que havia lido há algum tempo atrás que dizia que os recrutadores de recursos humanos estavam fazendo perguntas inusitadas para os candidatos nas entrevistas de emprego, uma delas, por exemplo, era que tipo de dinossauro você seria? As pessoas geralmente não têm muita criatividade e respondem que seriam um tiranossauro rex, sendo descartadas por isso, agora Carolina não tinha dúvidas, se estivesse no lugar do entrevistado ela lembraria do tricerátopo, do estegossauro, mas responderia que seria mais exatamente um brontossauro, embora não tenha certeza de que passaria no teste. Talvez a gente nunca entenda toda a ironia do mundo e talvez seja melhor assim.

Mas Carolina não sabia o que fazer com um brontossauro no jardim, as pessoas não iriam acreditar se ela contasse essa história para alguém. Não estava certa de que se tratava da descoberta de um sítio arqueológico que poderia ser tutelado através do seu tombamento, se fosse o caso de acionar o poder público e havendo interesse, é claro, na preservação do brontossauro, mas isso demoraria anos, a burocracia seria tremenda e mesmo hoje em dia reconhecendo-se a multititularidade dos bens comuns qualquer um poderia defender e tutelar um bem coletivo para preservar o patrimônio histórico?145 O brontossauro no jardim permanecia imóvel, o olhar vitrificado fixo no nada, sem pertencer a todos nem a ninguém.

Carolina não pode continuar pensando se poderia transformar o brontossauro em um bichinho de estimação para enfeitar o jardim, talvez as pessoas fizessem fila para vê-lo e deve ser tão importante para elas, nem chegou a uma conclusão sobre qual seria a melhor maneira para lidar com a situação porque um vento muito forte arremessou as roseiras contra as patas do brontossauro, tudo pareceu ficar avermelhado e em um piscar de olhos o brontossauro desapareceu. Jardim tem dessas coisas.

 

145 A tutela das multititularidades: repensando os limites do direito de propriedade de Everilda Brandão, editora Lumen Juris, 2018.

 

Foto: Naomi Julia Satake para Oh Happy Day.

Áudio: Boring Day de Kenny Paas disponível em Audiotool.

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