ASSIM FOI, ERA E SERÁ

Carolina, digamos que você marque de se encontrar com uma pessoa – digamos, uma mulher – por quem recentemente se apaixonou, em frente à National Gallery, em Londres. Digamos que ela esteja atrasada. Durante o tempo em que você a espera – que parece uma eternidade, mas são apenas 15 minutos – talvez centenas de pessoas passem por ali caminhando. Mas quem sabe? Você nem as vê. Algo em sua expectativa – expectativa refratada através de suas experiências anteriores – as apaga da cena. Essas pessoas não são para você, embora possam ser para outras; para outras, elas são mães, pais, irmãos, irmãs, filhos, filhas, amantes, inimigos, colegas, amigos, o vizinho do lado. E se suas experiências tivessem sido diferentes, uma delas poderia ser a pessoa que você está esperando. Mas elas não são. E então você a vê. Suas experiências entenderam direito: você a encontraria em meio a qualquer multidão do mundo.154

E digamos que vocês tenham marcado de se encontrar ali porque pretendem visitar juntos a National Gallery. E digamos que o façam. Você já fez isso antes, mas essa é uma experiência totalmente nova, você vê as coisas de maneira diferente dessa vez; ela está com você.155

E então você olha os quadros. Mais uma vez. Centenas deles. Algumas das melhores pinturas já produzidas, tecnicamente brilhantes, evocando coisas diferentes, talvez obras-primas, e, em certo sentido, todas igualmente boas. Mas, ao sair do museu e falar sobre os quadros, você diz que, na verdade, só gostou de dois ou três, só alguns te atraíram. E, para ser honesto, só um realmente te tocou. Por alguma razão, que você não consegue entender exatamente, para você, hoje, apenas “x” é digno de lembrança; só ele evocou a experiência que você queria. Você nem viu muito o resto. Talvez amanhã, em circunstâncias diferentes, o quadro não teria o mesmo apelo. Mas o quadro, em um sentido muito real, não vai ter mudado; você vai.156

E assim continua, indefinidamente. Apenas experiências: experiências destiladas, formatadas, figuradas, expressas, vividas, apenas gostos, apenas preferências. Essa é a questão de fundo, uma questão incapaz de sustentar qualquer coisa com certeza; mas capaz, no entanto, de manter uma vida singular, única.157

O que faz com que todos prefiramos um tipo de consciência histórica – um modo de ver, olhar, ler, escrever, ser – em detrimento de outro é nosso próprio entendimento, um entendimento obtido de nossas experiências singulares, experiências que, de forma nenhuma, surgem do nada, mas que não são tão profundamente arraigadas a ponto de ser muito conhecidas; e o que nos espera, a pessoas como nós?158

Se os valores humanos se mostram historicamente condicionados, a cultura, diferente da natureza, não obedece a uma rotina cíclica, de repetição: nascer, crescer, reproduzir, morrer. O homem é um ser histórico que pode mudar em função das novas experiências que a sequência da vida através das gerações coloca diante de si. A história humana se desenrola no fluxo de novas percepções e valores construídos pelo homem ao estabelecer um lugar para si no mundo.

 

154 A História Refigurada de Keith Jenkins, editora Contexto, 2014.

155 Idem.

156 Idem.

157 Ibid.

158 Ibid.

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