TRÊS MIL METROS DO CÉU

<fernando> você sonhou a noite passada? <carolina> sim, e você? <fernando> não consigo me lembrar <fernando> como foi o seu sonho? <carolina> sonhei que estava sentada na minha cama assistindo TV quando um passarinho entrava pela janela do quarto e pousava na minha cabeça <fernando> o que você fez? <carolina> fiquei imóvel até ele voar <fernando> o que você sentiu? <carolina> um misto de encantamento e estranheza <carolina> fiquei imaginando que se tivessem inventado a TV no século XIX usaria um chapéu com um pássaro empalhado e iria com as amigas tomar chá e assistir TV <fernando> liberdade <fernando> sensação <fernando> vento <fernando> asas <feranando> plenitude <fernando> ser <carolina> como podes saber se não estás sonhando agora? <fernando> é meu mundo e pinto da minha maneira, inventarei o meu lugar, uma vida real ou imaginária <carolina> meus pais vão plastificar de cor-de-rosa a janela do meu quarto novamente <fernando> você se sente confusa? <carolina> se o mundo muda de cor, posso pintar de qualquer cor <fernando> estás em teu próprio mundo, sem mentiras nem verdades <carolina> queria estar a três mil metros do céu…

Fernando, estou lendo um livro de história onde o narrador adverte os leitores para que evitem se afundar nas profundezas do passado historicizado e continuar muito precisamente na superfície das coisas, deslizando sobre a matéria para ficar no nível exato do momento deixando somente que o brilho do passado transpareça. Não se trata de compreender que o historiador faz e desfaz tramas em arranjos poéticos, mas sim que a história é um experimento discursivo reflexivo, estetizante, figurador.159

Os textos escritos teriam algo de muito literal que dá aos seus leitores a forte impressão de que é possível esperar que as palavras sejam algo que se possa entender corretamente. Esperamos que as palavras – e até mesmo os textos – sejam, de algum modo, certas, precisas, até mesmo verdadeiras, mas não esperamos isso de uma pintura, por exemplo. Imagine vários pintores – Gainsborough, Turner, Picasso, Warhol, Hockney – todos pintando as mesmas duas pessoas contra o mesmo pano de fundo cênico.160

Poderíamos esperar, por um momento sequer, que as pinturas fossem idênticas – na verdade desejaríamos isso? Claro que não. O que esperamos e o que sempre teremos são cinco apresentações muito diferentes, todas adequadas do ponto de vista individual do pintor, que reconhecemos como a assinatura pessoal de cada um, pois eles têm suas preferências. A apresentação, assim, nos leva novamente ao discurso da estética – de imagens, olhares, perspectivas, impressões, sensações, sentimentos, desejos, apreciações; do figurar e refigurar. Tudo que posso dizer é: pense nisso. E depois relaxe. E, em seguida, aceite. Quero dizer, por que não?161

 

159 A História Refigurada de Keith Jenkins, editora Contexto, 2014.

160 Idem.

161 Ibid.

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