SORVETE SABOR SAUDADE

Nos filmes Rogue One e O Último Jedi da saga Star Wars Peter Cushing e Carrie Fisher impressionam a audiência ao aparecerem na tela mais de quarenta anos depois do lançamento do primeiro filme da série na década de 1970 sem sinais de envelhecimento. Peter Cushing faleceu em 1994 e Carrie Fisher morreu em 2017 durante as filmagens de O Último Jedi, tendo, contudo, autorizado a utilização de sua imagem nos episódios futuros da franquia Star Wars.162

Seus papéis post-mortem nos filmes mencionados foram possíveis graças à sobreposição de uma imagem de alta tecnologia gerada por computador à performance de um ator real. Em essência, esse processo é baseado em um arquivo pessoal esmagador: um registro completo de todas as performances de Cushing e Carrie, onde cada expressão facial, cada inflexão de voz e gesto corporal foram usados como entrada para o robô-avatar.163

Dois historiadores brasileiros realizaram uma série de experiências que tratam de uma ideia análoga: a possibilidade de uma escrita não-humana da história, viabilizada por um programa de computador e um input ou arquivo muito detalhado. Em suma, o bot historiador operaria de alguma forma similar aos avatares de Peter Cushing e Carrie Fisher, ou qualquer outra analogia de ficção científica mencionada em filmes como Blade Runner ou Black Mirror.164

A ideia do robô historiador representa um deslocamento da tecnologia originalmente concebida para traçar perfis de consumidores para a produção de conhecimento histórico.  Esta mudança é feita simplesmente alimentando o robô com um arquivo a ser processado. Constatou-se que essas tecnologias geralmente entendidas como “mineração de texto”, também podem ser uma ferramenta muito poderosa na pesquisa científica se forem feitas perguntas considerando outros tipos de bancos de dados. As ferramentas de mineração de texto são capazes de calcular padrões lexicais em frequência e distribuição de palavras e realizar tarefas como agrupamento e categorização, no experimento foram utilizadas para a criação da própria narrativa histórica.165

Assistindo aos avatares de Peter Cushing e Carrie Fisher no cinema o espectador sente que algo não está certo em suas atuações: é perceptível um movimento levemente robótico em suas articulações, uma textura um pouco emborrachada em seus rostos. Na narrativa histórica criada por computador uma edição humana é necessária após a atuação do algoritmo de escrita para validar a narrativa criada pelo bot com base nas redes semânticas.166 Os historiadores podem até nos apresentar uma versão ciborgue e estereotipada do passado, mas será que precisamos da ilusão de uma autoridade robótica? Vivemos na história, qualquer narrativa sobre o passado somente pode ser legitimada quando reconhecida pelos sujeitos históricos conforme suas preferências subjetivas. Como são misteriosos os sentimentos.

 

162 Meta-história para robôs (bots): o conhecimento histórico na era da inteligência artificial artigo de Thiago Lima Nicodemo e Oldimar Pontes Cardoso na revista História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, v. 12, n. 29, abr. 2019.

163 Idem.

164 Idem.

165 Ibid.

166 Ibid.

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